Os fins e os meios

junho 15, 2009

maquiavelPor estes dias, peguei passando na TV um pedacinho do filme Cruzada, por sorte bem na parte que mais tinha me chamado atenção quando vi o filme (bem mediano, aliás). Ao mocinho, fizeram uma proposta indecorosa. Ele poderia matar o vilão, casar com a princesa e libertar o povo de uma ditadura malvada – tudo isso com a benção dos sábios. Mas o cara não aceitou. Quando assisti, fiquei revoltado, mas só depois fui perceber que, na verdade, ele tinha razão. Não há mal menor para um bem maior. Nosso querido Nicolau Maquiavel – a quem muito devemos admirar por ter sido quem, pela primeira vez na ciência política, tratou-a com a distância fundamental do cientista –, na sua mais famosa assertiva, “o fim justificam os meios”, infelizmente estava redondamente enganado. E foi esse equívoco que justificou tantos erros na história. O nazismo pensou assim, o comunismo também. Os americanos quase sempre foram na mesma linha, principalmente nas guerras que perderam. Quase todos os políticos (mesmo os amadores) sempre o fizeram e até hoje seguem assim. E se não há um fim declarado supostamente bom, consideram-se merecedores de um habeas-corpus preventivo meio coringa, pois pensam que: “nós estamos no caminho certo e eles no errado”. Se, como uma vez me ensinou um budista tailandês, cada um pensasse somente na relação causa-consequencia de cada ato em si mesmo, nossa vida seria certamente bem melhor.

popper-karl-01E pena que pouca gente se lembre o quanto estava certo Karl Popper. Esse foi o cara que realmente nos ajudou, com um pensamento muito simples. Propunha que o cientista, quando percebesse que tinha formulado uma hipótese equivocada, do fundo de seu coração, nobre e humildemente a abandonasse, buscando a verdadeira, sem olhar para o tempo (ou parte de sua reputação) que perdeu. Pena que boa parte do que tenho visto hoje se resume a uma tentativa pueril de se provar qualquer hipótese (ou tese, ou opinião), apenas pelo desejo de estar certo. É chato ver como a maior parte das pessoas não tem a menor idéia do que estão fazendo e, pior, não sentem nenhuma vergonha por isso. Acho que essa é umas das razões de eu, tantas vezes, ser tomado pelo sentimento de vergonha alheia.

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